'O mundo pareceu parar', diz estudante que filmou harpia com arara-canindé nas garras
21/01/2026
(Foto: Reprodução) Cena rara na mata: guia fica frente a frente com harpia e sua presa nas garras; VÍDEO
O silêncio da mata foi quebrado não pelo som, mas por uma imagem que traduz a força bruta e a beleza selvagem da natureza brasileira. Um flagrante raro feito pelo estudante de biologia e guia Lucas Souza, na Reserva Ecológica Cunhatai Porã, no Mato Grosso, registrou o exato momento em que uma harpia (Harpia harpyja) — a maior águia das Américas — predava uma arara-canindé (Ara ararauna).
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As imagens mostram o predador de topo de cadeia alimentar pousado em um galho alto, segurando firmemente a presa de plumagem azul e amarela.
O registro não é apenas visualmente impactante, mas cientificamente relevante, dado a dificuldade de documentar o comportamento de caça dessas aves na natureza.
"Uma cena que eu nunca tinha presenciado antes. Foi perfeito. O mundo pareceu parar. Tudo silenciou", relatou Lucas ao Terra da Gente.
Harpia (Harpia harpyja) predando Arara-canindé (Ara ararauna)
Lucas Souza / Estudante de biologia
O momento do flagrante
Lucas, que trabalha diariamente com animais selvagens estudando comportamentos e populações, descreveu o encontro como indescritível. Segundo o guia, a harpia não demonstrou pressa.
"A harpia permaneceu por cerca de 30 minutos com a arara presa em suas garras", detalhou Lucas.
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Esse comportamento de "espera" é comum em grandes rapinantes (aves de rapina), que muitas vezes recuperam o fôlego ou avaliam o ambiente ao redor para garantir que não há competidores antes de iniciar a alimentação ou transportar a presa.
Após o longo período de observação mútua entre o fotógrafo e a ave, ela levantou voo, carregando a arara pendurada em direção ao interior denso da floresta.
"Ver aquela águia magnífica, imponente, no topo da cadeia alimentar, foi algo indescritível. Não há palavras que consigam traduzir a grandiosidade desse momento", completou o estudante.
Por que esse registro é raro?
Harpia (Harpia harpyja) predando arara-canindé (Ara ararauna)
Lucas Souza / Estudante de biologia
Embora a arara-canindé e a harpia compartilhem o mesmo habitat em diversas regiões do Brasil, ver (e fotografar) o resultado dessa interação é um feito para poucos.
A harpia é um predador "invisível". Ela caça voando entre as copas das árvores e utiliza sua audição aguçada e visão binocular para surpreender as presas.
Segundo estudos científicos, embora aves façam parte da dieta da harpia, elas não são o prato principal.
A dieta preferida: A maior parte da alimentação da harpia consiste em mamíferos arborícolas, principalmente preguiças e macacos.
O lugar das aves: Aves como araras, mutuns e seriemas entram como presas secundárias.
Um estudo aprofundado realizado por pesquisadores do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), liderado pela Dra. Tânia Sanaiotti e publicado no Journal of Raptor Research, monitorou ninhos de harpias e analisou restos de presas.
A pesquisa apontou que as aves correspondem a uma parcela menor da dieta se comparada aos mamíferos.
O que diz a ciência: O artigo "Diet of the Harpy Eagle in the Amazonian Deforestation Arc", de Aguiar-Silva et al. (2014), destaca que, em algumas regiões, as preguiças podem representar mais de 50% da biomassa consumida, enquanto grandes aves são capturadas de forma oportunista.
Isso torna o registro de Lucas ainda mais valioso: ele documentou um evento de predação menos frequente do que a captura de mamíferos.
Gigantes frente a frente
Harpia (Harpia harpyja) predando arara-canindé (Ara ararauna)
Lucas Souza / Estudante de biologia
O embate registrado na Reserva Cunhatai Porã coloca frente a frente dois ícones da fauna brasileira:
Harpia (Harpia harpyja): Pode chegar a 90 cm de altura e 2 metros de envergadura. Suas garras são maiores que as de um urso-pardo, capazes de exercer uma pressão esmagadora. Está classificada como "Vulnerável" na lista nacional de espécies ameaçadas, sofrendo com o desmatamento.
Arara-canindé (Ara ararauna): Conhecida por sua beleza e vocalização barulhenta, é uma ave grande, atingindo até 80 cm. Apesar de não estar criticamente ameaçada globalmente, sofre com o tráfico de animais silvestres.
O registro de Lucas Souza nos lembra que, na natureza, a beleza também reside no ciclo da vida e da morte, essencial para o equilíbrio dos ecossistemas.
Veja o perfil no Instagram da Reserva Ecológica Cunhatai Porã aqui. O perfil do estudante também pode ser acompanhado por aqui.
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